Pensamento

3| Estou Exilado, Civilmente Exilado

Excertos do pensamento de D. António Ferreira Gomes (1959-1969)

 

“Não sei se serão dez ou vinte anos, se toda a vida, que terei de ficar em testemunho pela liberdade da minha Igreja, vinctus Christi como Paulo, lançado às “trevas exteriores” da Pátria, mas na comunhão da Igreja, nossa Pátria espiritual universal.” (Igreja, 29)

“Que fazer?... Um bispo, com tempo disponível, que fará?... Tratado, controvérsia, apologética, solilóquio, que hei-de fazer?... Deus nobis haec otia fecit - dizia o suave e amável Virgílio, ao abrir uma das suas Éclogas. A mim, bispo do Porto, um “deus” bem minaz e soberano condenou-me aos ócios do desterro; que fazer então? “(Igreja, 29)

“A experiência da vida ensina-nos eficazmente aquilo que os nossos maiores nos pregaram, talvez sem grande eficácia: que a carreira da nossa vida não é uma trajectória lisa e direita mas antes uma vereda cheia de curvas e laçadas, uma gradativa e penosa ascensão” (Igreja, 34).

“Ao atacarmos a encosta perfilam-se talvez diante de nós escarpas alcantiladas e agressivas, penhascos brutos e ameaçadores. Obstáculos infestos, hostis, derrotantes?!...” (Igreja, 34)

“... ainda não me aposentei nem queria transformar-me em estátua de sal. Não me interessa o passado, pelo passado, mas sim pelo presente e pelo futuro.” (Igreja, 35)

“Se pois foi por esses obstáculos que subimos, porque desdizer ou guardar ressentimentos contra os que nos forçavam a dar a nossa medida e que, em vez de obstáculos, se tornaram pontos de apoio?...” (Igreja, 34)

“Perspectiva e prospectiva são os dois extremos entre os quais oscila a lançadeira e se tece a vida do homem, como ser no mundo e na história” (Pareceu, 112)

85: “O futuro a Deus pertence: e está muito bem entregue. A nós apenas compete reconhecer que para lá vamos; e que é melhor avançarmos de frente. Na verdade não seria bonito entrarmos no futuro... às arrecuas.” (Igreja, 31)


“Entre o ‘medo católico’ e a ‘agressividade católica’ há uma imensa zona livre, que é a frente eclesial sem complexos nem compromissos” (Pareceu, 83)

“Não é o culto nem a piedade, mas o magistério da Igreja que faz mossa a todo e qualquer totalitarismo” (Pareceu, 228)

“Não admira que a dialéctica paulina entre a lei e a graça ou a fé, que está entre os fundamentos primeiros do progresso cristão e da evolução ético-democrática, seja tão pouco falada [...]” (Cartas, 97).

“Não pode haver soluções sem problematização; aqui a cruz de todas as coordenadas da Graça em acção! [...] Tudo isto tem portanto de obedecer à história para fazer história...” (Pareceu, 230-231)

“No actual momento da história parece que a norma desejável seria algo como isto: na vida e acção da Igreja tanta diplomacia quanta seja ainda necessária ou útil e tão pouca quanto seja possível.” (Cartas, 215).

“Não será preciso acrescentar mais exemplos para mostrar como e quanto a existência do mal no mundo contribui ou interfere com a afirmação e progresso do agnosticismo e ateísmo no mundo contemporâneo.” (Cartas, 165).

“Tudo quanto me fizeram ou deixaram que se me fizesse, descartando naturalmente o ódio, malevolência ou cobardia, que não posso aprovar, tudo contribuiu para dar sentido à minha vida e valor ao meu testemunho.” (Igreja, 35).

“O discernimento cristão deve levar a amar a lei pelo bem da lei e não por motivos legalistas de sanção ou de pecado.” (Cartas, 96).

“Só há uma coisa mais dramática que deixar-se conduzir pela vida: é deixar-se amar por Deus” (Igreja, 33).

“A Lei nova, promovendo a liberdade dos filhos de Deus, vai a caminho da civilização do Amor, em que as leis, quer civis quer religiosas, são queridas pelo próprio bem da lei e como princípio da paz e liberdade...” (Cartas, 99).
“O Reino de Deus não tem de colidir com os ‘reinos’ do Homem, porque os supera, passa-lhes por cima sem necessidade de choque”. (Cartas, 99)

“A Igreja emitiu uma série de documentos [... ] que podiam chamar-se justamente a Magna Charta .da Igreja aberta a uma sociedade aberta, e ainda a ‘Carta da liberdade’ nova” (Pareceu, 30)

“Consolei-me a dizer sim a quase todos os projectos [do Concílio] e de votar placet a todos os documentos definitivos, e isto não por mera resignação mas por adesão íntima e feliz. Tranquilizei-me pois até ao fundo no meu essencial sentire cum Ecclesia...” (Cartas, 296).

“Quem tem alguma coisa de novo e moralmente valioso a dizer aos homens do seu tempo não deve esperar imediata compreensão” (Carta à mãe, 23.7-1965)

 “A Igreja foi fundada e pregada como núcleo do Reino de Deus neste mundo; como tal tem de permanecer e ser pregada. Foi esta a missão que Cristo Lhe confiou, na pessoa dos Apóstolos: que pregassem o Evangelho a todos e Lhe fizessem discípulos e entre todos os povos da terra.” (Cartas, 97).

“A verdadeira tradição portuguesa, clara e evidente nos dois pólos, mas discutível de um extremo ao outro da nossa colonização, não é racista nem segregacionista, nem propriamente imperialista” (Igreja, 255)

“Este paternalismo constantiniano, tão erradamente apelidado de ‘concordata de separação’, é um envelhecimento de Cristandade tão constantemente adiado” (Igreja, 275)

“Tantos jovens generosos se afastam de uma Igreja que só lhes aparece o abrigo, o porto dos medrosos e dos mesquinhos, dos submissos e obedientes, dos acomodantes e acomodados” (Igreja, 278)

“A ‘pastoral da inteligência’ deve pois começar por reconhecer a ‘modernidade’, com os seus riscos, como a grande oportunidade para a evangelização da inteligência, da qual deve descer, como das montanhas desce a água da chuva, o exemplo e o estímulo para o ‘florescimento do deserto’.” (Cartas, 85).


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