Pensamento

4| Magistério Profético e Construção da Igreja do Porto

Excertos do pensamento de D. António Ferreira Gomes (1969-1982)

 

 

“A liberdade é sem dúvida um bem e um direito, inerente à pessoa humana, mas é antes obrigação da consciência e uma virtude a cultivar e virtude difícil e às vezes heróica, que pode levar ao caminho do Calvário.” (Cartas, 99).
 
 “Somos um povo constituído politicamente, em que todos devem participar e ser corresponsáveis do bem comum [...] que converge na unidade superior do Estado, como parte da sociedade humana” (Homilias, 52)

“Acreditamos em Deus, Senhor da História, cremos pois no sentido da História, no Homem seu agente e no Espírito de Cristo que fala nas consciências e nos acontecimentos” (Homilias, 64)

“O Reino de Deus não tem de colidir com os ‘reinos’ do Homem, porque os supera, passa-lhes por cima sem necessidade de choque.” (Cartas, 99).

“Paralelamente a esta consideração da necessidade da fé para o mundo desenvolvido – cultural e cientificamente desenvolvido – põe-se o problema da metodologia da transmissão da fé e da educação da fé. A Igreja de Cristo é essencialmente educadora.” (Cartas, 276).

“O mundo está feito ‘a minha aldeia’ e a aldeia dos que ficam está feita ‘o meu mundo’.” (Cartas, 278).

“Desde muito cedo a experiência de padre e de bispo me levou à convicção de que [o pecado da omissão] afecta a todos, mas muito particularmente às pessoas constituídas em autoridade, no mundo e na Igreja, designadamente nesta.” (Cartas 299).

“É com a voz da Igreja [...] com toda essa voz e só com ela, que um bispo ou padre pode falar da Paz” (Homilias, 24)


“A Igreja, pregando o Reino de Deus [...] deve situar o cristão no tempo, bem no seu tempo, mas na perspectiva duma permanente abertura ao futuro, como vivendo pelo espírito acima do tempo, como homem entre séculos sempre à espera de Jesus que vem...” (Cartas, 105).

“A criança, como o Menino no presépio, é a afirmação da esperança de Deus num mundo de paz.[...] Façamos um mundo em que a criança possa viver, em que lhe valha a pena viver!” (Homilias, 154)

“Desprezar instituições e práticas que os séculos consagraram só pelo gosto de ser como no princípio [...] será fazer arcaísmo futurista mas não é construir validamente o futuro. Estamos a caminho do terceiro milénio cristão, não estamos em regresso ao primeiro...” (Cartas, 299).

“Promovendo os direitos da consciência dos filhos de Deus e cultivando a dignidade da pessoa humana ‘na ‘cidade’ do mesmo Deus a Igreja serve a liberdade superior do homem apontando-lhe aquilo que poderíamos chamar o ponto ómega do seu progresso que é a Redenção por Cristo”. (Cartas, 99)

“Na Igreja temos de ser representantes e no culto, palavra e acção, temos de ser actores: oxalá que tão bons representantes e tão perfeitos actores que só o Representado aparecesse à assembleia e só o Autor fosse visto e ouvido.” (Cartas, 24).

“Quando o mestre do horizontalismo é Jesus, podemos segui-lo com confiança...” (Homilias, 40)

“Pregar, prega-se ao Povo, que ouçam ou não os servidores do Estado. E, em tempos de democracia, se realmente o for, ‘o povo é quem mais ordena’”. (Cartas, 111)

“A vida é boa, mesmo a vida corpórea, social e temporal; mas não há, por amor da vida, que perder as razões de viver, a transcendência dos fins” (Ministério, 167)

“A guerra, antes que castigo do pecado é um pecado e soma de pecados, resultado ela mesma do pecado e causa infinita de pecados” (Homilias, 44)


 “Não compete à democracia política definir o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, o justo e o injusto.” (Cartas, 100)

“A encarnação cultural de Cristo tem de repetir-se na Igreja, de idade em idade, de século a século. No século presente essa encarnação cultural da Igreja não pode deixar de ser afectada pelos acidentes da cultura neste tempo.” (Cartas, 48-49).

“Poderá a subida do ‘caminho real da santa cruz’, uma vez seguida por Cristo, ficar apenas para veneração longínqua e adoração alienada, e talvez alienante, do cristão?” (Homilias, 152)

“A Lei nova, promovendo a liberdade dos filhos de Deus, vai a caminho da civilização do Amor, em que as leis quer civis quer religiosas são queridas pelo próprio bem da lei e como princípio da paz e liberdade...” (Cartas, 99).

“Fala-se hoje frequentemente da ‘pastoral da inteligência’. E com justa razão se fala, porque dificilmente haverá outra pastoral mais necessária e ao mesmo tempo mais difícil do que esta.” (Cartas, 75).

“Crer em Cristo é crer na Paz possível, a caminho da Paz efectiva. Não crer na Paz é não crer em Cristo, no mistério teândrico da Cruz e da Ressurreição. Seria o anti-cristianismo, o ateísmo do nosso tempo”. (Homilias da Paz, 67)

“A Igreja deve pregar o Reino de Deus, sob o ensinamento e modelo do homem universal, que se nos oferece em Jesus de Nazaré. ... Ele nos aparece como homem aberto ao humano onde e como quer que ele se encontre.” (Cartas, 101-102).

“A aspiração do filósofo grego ao homem como ‘medida de todas as coisas’ encontra a resposta no humanismo cristão. Assim, também o desafio das ciências humanas, [...] pode tornar-se a maior oportunidade para a cristianização da cultura humana.” (Cartas, 83-84).

“A saúde e a força duma sociedade serão tanto maiores e melhores quanto mais ela for capaz de assumir e encorpar [...] tensões e conflitos... numa convergência superior de unidade pluralista.” (Homilias da Paz, 76).
 “Hoje em dia, a evangelização parece ter de firmar-se numa grande recusa e um grande anúncio de novidade”. (Cartas, 144).

“A deseducação permanente da infância na sociedade e pela sociedade é a tragédia de todos os tempos, mas decerto especialmente do nosso” (Homilias, 158)

“É preciso cultivar a liberdade pessoal, se queremos contribuir para o desenvolvimento duma socialidade sã e equilibrada, se queremos realizar a paz no homem e entre os homens” (Homilias, 168)

“O homem só é verdadeiramente homem quando supera o efémero do sentimentalismo com a constância do personalismo” (Homilias, 170)

“Com luta ou sem luta, o que mais importa ao progresso humano [...] é um autêntico sentido moral na convivência pessoal e colectiva. Nada que seja violento pode durar. Nada que seja imoral pode satisfazer o homem todo e assegurar a longo curso o seu bem, mesmo económico.” (Antologia I, 275).

“Sempre senti a necessidade de progresso na Igreja – ao lado do progresso dogmático, o progresso moral, institucional e pastoral – o progresso e a modernidade, a forma justa e única eficaz de evitar o ‘modernismo’ e o ‘progressismo’, no que têm de heterodoxo ou herético. (Cartas 293-294).

“[...] Na medida em que os homens da Igreja esquecerem ou minusvalorarem a causa da Liberdade estão a pôr em problema a própria causa de Deus, na sua existência ou na Sua justiça, bondade ou mesmo omnipotência”. (Cartas, 170).

“A primeira preparação da paz entre os homens é cultivar a racionalidade no pensar e no agir” (Homilias, 178).

“Sempre me inclinei a pensar que estamos envolvidos em processos evolutivos – se não para que serviria a História e como é que Deus podia ser o seu Senhor?!” (Cartas, 293-294).

“O homem não pode ser nem existir sem cultura: também não ode ser nem existir sem culto” (Cartas, 50).
“É pela sinceridade austera e corajosa que tudo deve começar” (Homilias, 103)

“À liberdade não basta recebê-la ou aceitá-la; é preciso merecê-la, uma vez, e reconquistá-la a cada momento” (Homilias, 94).

“[...] homem livre [...] sempre aspirei a oferecer essa liberdade a uma causa que superasse a minha vida, sempre também senti que a liberdade essencial é o próprio mistério da vida humana, mistério que só se pode entender e realizar em referência ao Absoluto” (Testamento)

“Como a própria vida só serve e só se julga quando se arrisca, também a liberdade só vale e só se mede no seu valor quando se oferece em dom e se põe ao serviço de algo que supere o seu sujeito...” (Homilias, 169)

“Caridade, sim e sempre, em vida e depois dela; quebra de princípios, não, nem antes nem depois!” (Homilias, 170)

“A verdade do homem está na comunicação livre e indulgente de Deus. Sair desta comunicação [...] é entrar no caminho da inconsciência, da hipocrisia e da mentira” (Homilias, 161)

“[...] Aquilo que me parece ser a chave explicativa da minha vida consciente [...] a liberdade humana é ‘a possibilidade da disposição total e definitiva que o sujeito livre faz de si mesmo e da sua vida’ (Rahner)”. (Testamento, art.12º)

“Nós somos solidários com o passado e devemos sentir-nos responsáveis para com o futuro” (Escritos de Portalegre, 342)


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